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Por Julio Ayres*
Com o estouro da crise econômica norte-americana, encabeçada pelo subprime, descobrir sua intensidade e seus desdobramentos nas economias de cada país ainda é um desafio. De qualquer forma, os impactos para o Brasil serão menos intensos hoje do que seriam em tempos atrás, pois o país possui indicadores econômicos mais sólidos, passando de devedor a credor internacional. O valor das reservas também teve um expressivo crescimento.
É certo, porém, que a crise atingirá um segmento até então em constante expansão no Brasil, relevante por sua alta capacidade de movimentar a economia: o crédito, que ficará mais escasso e caro para todos os setores do mercado nacional. A fonte de grandes bancos lá fora secou e, com a baixa da liquidez e solvência do sistema financeiro internacional, muitas operações de crédito a empresas e bancos menores foram suspensas. Estes, por sua vez, reduzem a oferta de financiamento por falta de recursos para emprestar. A conclusão é simples: a crise norte-americana já é uma realidade em todas as partes do mundo, inclusive aqui – embora as autoridades governamentais teimem negar.
Mesmo com o anúncio dos principais bancos brasileiros de que a elevação da Selic em 1,75 p.p. no acumulado de 2008 não afetaria o preço do crédito ao consumidor, o cliente final não terá mais como escapar do aumento com a crise internacional. Para ele, será nítida a elevação de juros e a redução dos prazos para pagamentos. Neste cenário, o crédito, grande fomentador da economia brasileira, passará a apresentar desaceleração do crescimento.
Quanto a isso, ainda é possível destacar mais um problema. Uma taxa de juros muito alta poderá significar a redução da oferta de produtos de crédito, pois a demanda das linhas de financiamento pode cair. Quando não, resultará em índices maiores de inadimplência.
Especialmente neste ano, o saldo de dívidas de crédito vem apresentando elevação, principalmente nos produtos sem garantia. Segundo dados do Banco Central, o índice de inadimplência de pessoa física atinge hoje a casa dos 7,5%.
Neste contexto, o trabalho das empresas especializadas em cobrança é fundamental. A concessão de crédito se tornou mais sofisticada em função do desenvolvimento de melhores ferramentas de análise e do lançamento de novos produtos, como o crédito consignado. Mesmo com o aumento significativo do segmento nos últimos anos, a inadimplência esteve sob controle das instituições financeiras, principalmente com o apoio das empresas de recuperação de crédito, que investiram pesado em tecnologia, processos e práticas administrativas.
Hoje, as instituições financeiras já estão mais seletivas em relação aos produtos – privilegiando os de melhor desempenho – e ao aprimoramento do relacionamento com as empresas de recuperação de crédito, tornando um cenário de descontrole da inadimplência pouco provável.
O crédito ao consumidor no mercado brasileiro apresentou crescimentos significativos nos últimos anos influenciados diretamente por um conjunto positivo de fatores econômicos, sociais e legais. O crescimento do PIB, o aumento do poder de compra da população e do número de empregos formais são exemplos de indicadores que influenciaram no crescimento do crédito. No aspecto Legal, a alienação fiduciária foi muito importante para o aumento da oferta de produtos de financiamento com garantia, pois permitiu às instituições financeiras mais agilidade na retomada de bens em caso de inadimplência.
É preciso estar atento ao cenário econômico nacional para evitar que a crise norte-americana, que já vem atingindo outros países, consiga penetrar no Brasil com mais intensidade. A todos os participantes da economia, de instituições financeiras aos tomadores de crédito, que haja uma manutenção saudável e sustentável da expansão do produto no país. A manutenção da taxa de inadimplência em níveis controlados torna-se fundamental em uma nação que tem nesse segmento seu maior aliado no crescimento.
*Julio Ayres é diretor executivo da Credit.One, empresa do grupo Interfile Participações S/A, especializada em recuperação de crédito.
* Este artigo foi publicado na Gazeta Mercantil no dia 14 de novembro de 2008.
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